terça-feira, 3 de março de 2026

A geografia do sertão que ajudou a erguer um clássico nacional

 Revista do IHGRN revela consultoria de Oswaldo Lamartine a Rachel de Queiroz em "Memorial de Maria Moura"
    Um dos grandes clássicos da literatura brasileira do fim do século XX guarda, em suas entranhas, a contribuição decisiva de um potiguar. A edição 103 da revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte (IHGRN), a mais antiga publicação em circulação no estado, revela a consultoria prestada por Oswaldo Lamartine de Faria à escritora cearense Rachel de Queiroz na construção do romance "Memorial de Maria Moura".
    No artigo “Uma geografia para Maria Moura”, o jornalista e escritor Gustavo Sobral, sócio do IHGRN, reconstrói essa história pouco conhecida. Reconhecido como “sertanólogo”, Oswaldo Lamartine dedicou grande parte de sua obra ao estudo do Seridó e do universo sertanejo. Entre suas muitas facetas, estava a de consultor especializado em assuntos do sertão, função que exerceu quando Rachel preparava o romance publicado em 1992.
    Segundo Sobral, Lamartine levou a tarefa a sério. Produziu manuscritos e desenhos reunidos sob o título “A Geografia de Maria Moura”, material concebido como base documental e imagética para dar consistência histórica, territorial e cultural à narrativa. Parte desse conteúdo, verdadeira matéria-prima do romance, é disponibilizada na íntegra na nova edição da revista.
    O material impressiona pela minúcia. Oswaldo descreve e desenha aspectos centrais da vida sertaneja: o uso do burro-mulo, as técnicas de açudagem, a dinâmica da caatinga, o manejo do gado, a arquitetura das casas e currais, além de detalhes de utensílios domésticos. Nada lhe parece pequeno demais. Ele escreve com precisão quase etnográfica e, ao mesmo tempo, traduz em traços aquilo que explica em palavras, oferecendo não apenas informações, mas uma verdadeira cartografia cultural do sertão.
    A própria Rachel deixou registrado o reconhecimento pela colaboração, ainda no início dos anos 1990. “Oswaldo levou a sério a tarefa e passou a me fornecer toda espécie de informação que eu lhe solicitava”, afirmou. Em outro trecho, reforça a dimensão do saber do potiguar: “Acho que, no Brasil, ninguém entende mais do sertão e do Nordeste do que Oswaldo”.
    A edição 103 amplia o olhar sobre essa contribuição ao trazer também o artigo “Os desenhos de Oswaldo Lamartine”, assinado pela doutora e artista visual Angela Almeida, também sócia do instituto, que analisa a dimensão gráfica do material produzido. O estudo destaca como os traços e esquemas elaborados pelo "sertanólogo" ultrapassam o caráter ilustrativo, configurando-se como parte essencial da arquitetura simbólica que sustentou o romance.
    Ao recuperar esse episódio, a revista do IHGRN não apenas ilumina os bastidores de uma obra consagrada, mas reafirma a importância da produção intelectual potiguar na construção de narrativas centrais da literatura brasileira. A revista pode ser adquirida diretamente na sede do Instituto, na Rua da Conceição, em Natal, onde o público tem acesso à publicação e ao acervo da instituição.

Texto: Octávio Santiago
Imagem: Maria Simões