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sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

Livraria do Rio Grande do Norte

Confira a série completa de artigos do IHGRN publicados na Tribuna do Norte no segundo semestre de 2022

    O Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte reuniu e listou os artigos da terceira série para o jornal Tribuna do Norte, publicados semanalmente no segundo semestre de 2022. A intenção é facilitar o acesso para leitura e pesquisa. 
    Gustavo Sobral e  André Felipe Pignataro organizaram a série e são autores de algumas resenhas. A produção dedicou-se a resenhas de livros de autores potiguares. Dentre os títulos: Nomes da Terra de Câmara Cascudo; Notas para a História do Rio Grande do Norte, de Olavo de Medeiros Filho; e as Revistas do Instituto Histórico e da Academia Norte Rio-grandense de Letras. 
    O patrimônio histórico, cultural e artístico é também tema de alguns dos livros resenhados, como o trabalho pioneiro de Oswaldo de Souza sobre o patrimônio do Rio Grande do Norte; Hélio Galvão sobre a Fortaleza dos Reis Magos; e Dorian Gray Caldas sobre as Artes Plásticas do Rio Grande do Norte. As imagens que ilustram cada publicação de artigo são criações de Maria Simões.
    A reunião completa está disponível no site do jornal Tribuna do Norte e no blog institucional do IHGRN. Confira, pela ordem de publicação, os títulos e clique para ler os artigos. Boa leitura!

Artigos:

Texto: Marcela Bulhões
Imagem: Maria Simões

Cascudo Sempre!

 
    Releio, mais uma vez Na Ronda do Tempo, do mestre Câmara Cascudo. E mais uma vez me deixo encantar, fico seduzido pelo seu talento de escritor. 
    Gosto de ler esses seus livros memorialísticos, tal qual Ontem e Pequeno Manual do Doente Aprendiz, lentamente, saboreando as palavras, a construção das frases, o bordado do texto que se delineia ante nossos olhos. 
    O prazer da boa leitura! 
    Cascudo é inquestionável quanto ao conjunto da obra. Denso, complexo, eterno, se tivesse nascido na Europa ou nos Estados Unidos seria cultuado.
    Neste "Brasil" que segundo suas próprias palavras, em Na Ronda do Tempo, "regiamente recompensa aqueles que não servem e se servem dele, condescendendo em ser vaca de leite para malandros escorregadios, atingindo todas as alturas, rastejando e babando", o merecimento, o respeito que se tem por sua produção, é episódico e fragmentado.
    Resiste bravamente pelo denodo de alguns enquanto ele, Cascudo, o pensador, o polímata, em sua própria Região, o Nordeste, se transformou em personagem folclórico. "Vá ler em Cascudo, ignorante", dizem. Ironia do destino. 
    Já em 1969, no Ronda do Tempo, fino observador do que se lhe passa em seu entorno, e à Montaigne, um dos seus prazeres literários sempre renovados, observou: "Para mim, compra-se infinitamente maior quantidade de livros, mas a leitura é muito inferior e rara."
    E continuou, cáustico: "Desapareceram aqueles embaixadores da Cultura Axilar, na classificação de Agripino Grieco, passeando com o volume debaixo do braço. Deduzo esse resultado no contato de amigos e audição de palestras intelectuais sobre autores. Dá-me a impressão de viagem aérea. Não há pormenor, figuras, episódios, boiando na memória. Há visão de conjunto, síntese, resumos impressionistas, marchas, flashes. A opinião virou parecer técnico. A maior massa adquiriu para ter o volume que a voga apregoou e é um decesso ignorá-lo, como a um recanto pitoresco ou Night Club consagrado pelos cronistas da Vanity Fair. As alusões e conclusões ao autor são sempre vagas e genéricas. E essa minoria que lê pertence aos concorrentes reais ou em potencial. Já não existe aquela memória fiel às preferências literárias, recitando trechos e lembrando frases felizes. O restante olha sem ver. Muito Best-seller dormindo nas cestas dos “saldos”." 
    Impressionante. O olhar do sábio reconstrói, no presente, com a messe do passado, aquilo que será o futuro. 
    A simplicidade com a qual escreve é algo invejável, inatingível. Com uma frase expõe um espaço significativo da realidade. 
    E o faz rendendo homenagens, sempre, ao estilo, como nessa frase, colhida do seu livro já citado, por meio da qual critica a excessiva produção literária daquele tempo (imaginemos o que diria hoje!): "Passeio furtivo pelas livrarias. Montanhas de livros. Dá-me o remorso de ser cúmplice." 
    Que mais poderia ambicionar um leitor contumaz ao ler um livro, a não ser se deparar com uma frase como essa? 
    Cascudo sempre!

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Este artigo é parte de uma série de textos voltados à divulgação do acervo do IHGRN e da história do Rio Grande do Norte, veiculada no jornal Tribuna do Norte.

Artigo: Honório de Medeiros
Imagem: Maria Simões

sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

Paróquias Potiguares

 
    Em sua obra, “Paróquias potiguares: uma história” (Brasília: Senado Federal, 2015, 450p), o Padre Normando Pignataro Delgado (1934-1912) decorre pela história do Rio Grande do Norte paralelamente à criação e expansão da fé católica em solo potiguar. O autor, que nos deixou antes de ver sua obra impressa, além do Sacerdócio, era formado em direito, trabalhou como tabelião e fôra membro do IHGRN. 
    Na apresentação da obra, Jurandyr Navarro, destaca sua importância e, de maneira impetuosa, enobrece o autor. Notabilizando, sobretudo, o estudo laborioso e sagaz com que a pesquisa foi conduzida, resultando numa obra de caráter fundamental para “fortalecer a Fé dos crentes, remédio salutar contra as doenças do corpo e da alma”.
    Além da mensagem do Arcebispo metropolitano de Natal, Dom Jaime Vieira Rocha, outro sacerdote cauciona a obra, o Padre João Medeiros Filho, assinando o seu prefácio e definindo como “um dos melhores trabalhos na área da história eclesiástica do Rio Grande do Norte”. 
    De forma fluida a obra está dividida em três partes, onde o autor aborda, de maneira clara, fatos, datas, pessoas e locais que fazem parte da história da Igreja Católica em território potiguar.
    Na primeira parte, O colonialismo português, dívida em quinze tópicos, Padre Normando versa sobre os acontecimentos que impulsionaram a humanidade, levando o leitor a perceber, de forma sutil, a importância da fabricação, em larga escala, do papel, a invenção da prensa de Gutenberg e, como consequência, a difusão do conhecimento. A expansão marítima e o regime de padroado, que expandem os reinos e a fé, o descobrimento do Brasil, o Concílio de Trento e as primeiras expedições ao Rio Grande são brevemente discutidas, proporcionando ao leitor se “ambientar” no tempo e na história. 
    A colonização do Rio Grande, segunda parte do livro, também subdividida em tópicos curtos, tem início com a expedição de Manuel Mascarenhas Homem, conseguindo por fim fincar presença portuguesa (e espanhola) em terras potiguares, construído o forte e fundando a cidade de Natal, no mesmo instante que se implantava, através da Igreja Católica, sua estrutura religiosa. As Missões Jesuítas, a presença holandesa, os massacre em Ferrero Torto, Cunhaú e Uruaçu, a insurreição pernambucana, a formação das primeiras comunidades e, por fim, a criação da diocese de Olinda encerra este capítulo.
    Na terceira, e última, parte, Paróquias do Rio Grande do Norte, cerne da obra, o autor apresenta a criação de 98 paróquias em território potiguar, entre os anos de 1601, com a criação da Paróquia de Nossa Senhora da Apresentação, até 2009, em meio às comemorações alusivas ao centenário da Diocese, criada pela Bula “Apostolicam in Singulas”, do papa São Pio X, em 29 de dezembro de 1909, Dom Matias patrício de Macedo, então arcebispo metropolitano, criava a nova Paróquia de Nossa Senhora da Apresentação, tendo como sede a igreja catedral. 
Em todos os capítulos, destinados a cada uma das paróquias, o autor não se prende unicamente ao contexto da criação paroquial, fatos relevantes no Brasil e no mundo também são mencionados. Concomitante a criação das paróquias o leitor pode observar a criação da Diocese de Natal e sua elevação a Arquidiocese, a morte do Padre João Maria (o Santo de Natal), entre outros fatos que marcaram nossa história.
    Uma obra ímpar, única e singular. Capaz de agradar a todos, seja pelo cunho devocional, pelo saber histórico ou pelo simples prazer da leitura.

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    Este artigo é parte de uma série de textos voltados à divulgação do acervo do IHGRN e da história do Rio Grande do Norte, veiculada no jornal Tribuna do Norte.

Artigo: Kamisson Danyel de Azevedo Silva
Imagem: Maria Simões

segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Notas para a história do Rio Grande do Norte

 
    “Para tal, muito me esforcei”, considera Olavo de Medeiros Filho (1943-2005) o autor de “Notas para a história do Rio Grande do Norte”, uma publicação da Unipê, ano de 2001, que é uma continuação de “Aconteceu na Capitania do Rio Grande do Norte” (1997), do mesmo autor. Medeiros Filho mesmo explica que são “capítulos independentes entre si, todos eles versando sobre temas ligados à antiga Capitania do Rio Grande do Norte, no seu período colonial”.
    Olavo Medeiros Filho é um bom exemplo de como o autodidatismo pode ser profícuo para o conhecimento histórico, escreve o historiador Arno Welling numa resenha sobre o livro que publicou na Revista IHGB (162, 2001), acrescentado também que aos trabalhos de Medeiros Filho se pode atribuir empatia com a pesquisa documental e acuidade crítica.
    José Octavio de Arruda Melo, na apresentação ao livro, é outro que exalta o trabalho impresso por Medeiros Filho, uma fusão da história com a geografia, o que o aproxima de Capistrano de Abreu de quem captou a noção de espaço geográfico, antropológico, econômico, social, político e militar e o utiliza como ferramenta para compreender a ocupação do território do Rio Grande do Norte.
    O livro apresenta um total de 26 estudos que tratam em sua totalidade do período colonial, nos quais se incluem capítulos, entre outros, que tratam do problema da exata localização dos pontos histórico-geográficos visitados pela esquadra de Pedro Alves Cabral, refutando uma a um os argumentos de Lenine Pinto, autor de uma tese que defende que a esquadra cabralina aportou no Rio Grande do Norte e não na Bahia.
    A casa de pedra do sítio Coqueiros, praia de Pirangi, também é tema de um dos estudos. Medeiros Filho acredita que tenha sido erguida na segunda metade do século XVI, pertencente aos franceses que a utilizavam como armazém para guardar mercadorias objeto e trocas com os potiguares. Também está no livro a ocupação do Rio Grande por Mascarenhas Homem em todos os detalhes. E assim, como diz Welling, Olavo de Medeiros Filho, acrescenta o melhor aos estudos da capitania potiguar entre os séculos XVI e XIX.

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Este artigo é parte de uma série de textos voltados à divulgação do acervo do IHGRN e da história do Rio Grande do Norte, veiculada no jornal Tribuna do Norte.

Artigo: Gustavo Sobral
Imagem: Maria Simões

quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

Sobre as Cartas dos Sertões do Seridó

 
    As "Cartas dos Sertões do Seridó", nos mostram a boniteza da estética sertanejo-seridoense, evocando a cultura e o pertencimento de um seridoense experimentado na vivência e na lida de um sertão rural ímpar e ao mesmo tempo plural.
    As Cartas dos Sertões do Seridó, também são uma boa prosa, resgatando e reconstruindo espaços e situações vividas ou não pelo autor, mas que fazem parte da cultura e da memória daquele sertão velho.
    O resgate cultural feito através das missivas de Paulo Bezerra, tem como principal objetivo resgatar um "modus vivendi" que entrou em um processo de esquecimento e substituição. As Cartas dos Sertões do Seridó, tem a nobre missão de mostrar às gerações atuais e futuras, esse universo plural na forma de um importante memorial.
    "Há uma légua de passado", como diz Jessier Quirino, no bonito texto das orelhas em "Outras Cartas dos Sertões do Seridó", o "Pero Vaz de Caminha" do Seridó, abre a porteira da saudade e nos conta as mais bonitas lembranças dos seus antepassados que por sua vez, deixaram sua marca indelével nas cercanias do Acari.
    Seca, inverno, meios de transporte, religiosidade e lida sertaneja, são ingredientes indispensáveis na construção das narrativas oferecidas!
    Paulo Bezerra, ou Paulo Balá, foi um bom missivista que encantou o Seridó com suas cartas que por sua vez descortinam o Seridó de antanho a partir da fazenda Pinturas no Acari-RN. O chão fazendeiro da vida do autor é descrito com riqueza de detalhes, oferecendo ao leitor uma visão macro dos usos e costumes de um sertão primevo que aos poucos vai desaparecendo do cotidiano atual, engolido pelo imediatismo e pela liquidez da modernidade.
    No entanto, o sertão ficará através das suas cartas, que se multiplicaram em: "Outras Cartas dos Sertões do Seridó", Novas Cartas dos Sertões do Seridó", Cartas dos Sertões do Seridó – 4° Livro", desafiando a ação do tempo. As Cartas dos Sertões do Seridó – registro imensurável de uma cultura e de um povo, sugerem uma viagem no tempo e no espaço sertanejo de pertença do autor e de muitos seridoenses. Que as "Cartas dos Sertões do Seridó", possam encantar todos os leitores que delas tomem conhecimento pelos tempos vindouros.

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    Este artigo é parte de uma série de textos voltados à divulgação do acervo do IHGRN e da história do Rio Grande do Norte, veiculada no jornal Tribuna do Norte.

Artigo: Walclei de Araújo Azevedo
Imagem: Maria Simões

quarta-feira, 30 de novembro de 2022

Artes plásticas do Rio Grande do Norte

 
    Um dos poucos registros gerais, na verdade um panorama das artes plásticas no Rio Grande do Norte no século XX, foi a tentativa do múltiplo e reconhecido pintor, tapeceiro, restaurador, poeta e ensaísta, o natalense Dorian Gray Caldas (1930-2017) em  “Artes plásticas do Rio Grande do Norte (1920-1989)”,  publicado em conjunto pela Edufrn, Funpec e Sesc, em 1989.
    Caldas se propõe a apresentar, a partir de um levantamento iconográfico e do registro biográfico e de vida artística de pintores, desenhistas, escultores, tapeceiros e xilógrafos, os artistas do seu tempo e os que vieram antes. 
    O próprio autor assinala, na nota introdutória, que optou por não definir escolas, estilos ou métodos, mas apenas registrar os artistas e seus trabalhos e o fez reproduzindo algumas obras e acrescido de registros dos catálogos de mostras e exposições deles. 
    Uma espécie de ensaio introdutório apresenta um pouco do cenário das artes no Rio Grande do Norte. A começar pelo trabalho do pintor, arquiteto e poeta Joaquim Fabrício Gomes de Souza (1855-1900). Chega aos anos 1920, com Erasmo Xavier e Adriel Lopes; aos anos 1930, com Murilo La Greca, Moura Rabello e Hostílio Dantas.
    Os anos 1940, com Cícero Vieira; anos 1950 e 1960, com Newton Navarro, Ivon Rodrigues e o próprio Dorian Gray Caldas no I Salão de Arte Moderna; até registrar a plêiade de artistas que se manifestam nos anos 1970, 1980, as vanguardas e movimentos, arte popular, artesanato e quadrinhos.
    Os nomes dos artistas estão listados por ordem alfabética do prenome. Tudo começa com Abraham Palatnik e termina com Zaíra Caldas Pereira. Os críticos e comentaristas de artes plásticas, colecionadores e entidades que dispõe de acervos artísticos são nomeados na sequência. 
    Relevante contribuição para o registro dos artistas e das obras, o trabalho de Caldas prova que há um cenário vivo e uma história das artes plásticas no Rio Grande do Norte a espera de ser contada, artistas a serem estudados, obras a serem conhecidas e um cenário das artes que merece ser valorizado.

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Este artigo é parte de uma série de textos voltados à divulgação do acervo do IHGRN e da história do Rio Grande do Norte, veiculada no jornal Tribuna do Norte.


Artigo: Gustavo Sobral e André Felipe Pignataro
Imagem: Maria Simões

segunda-feira, 21 de novembro de 2022

Proto História do Rio Grande do Norte

    A história do Rio Grande do Norte já foi contada e recontada por vários autores, ao longo do tempo. Nomes como Ferreira Nobre, Rocha Pombo, Tavares de Lyra e Câmara Cascudo, sempre farão parte da leitura obrigatória para aqueles que querem conhecer um pouco mais sobre nosso pequeno, mas glorioso, Estado.
    A proposta trazida por Tarcísio Medeiros, professor do curso de história da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e sócio do Instituto Histórico e Geográfico do RN, falecido em 2003, na sua “Proto História do Rio Grande do Norte” (1985) é, ao mesmo tempo, inovadora e audaciosa.
    Isso porque o leitor não vai encontrar, facilmente, obras que se dediquem a falar da pré-história potiguar, da paleontologia e da formação geológica do Rio Grande do Norte nas Eras Mesozoica e Cenozoica. A propriedade com que o autor aborda a temática, sob um novo olhar, um primeiro olhar, por isso chamada de “proto-história”, é de uma riqueza sem par.
    Os próximos capítulos abordam questões geográficas relevantes, na maior parte ignoradas pelos historiadores, como a presença humana e a (mega)fauna e (mega)flora local.
    Ao falar das etnias dos potiguares e dos cariris, Tarcísio Medeiros vai além, ao abordar a chegada do próprio homem à América do Sul e ao Brasil. Fala de mitos e das viagens pré-cabralianas, até chegar, efetivamente, à dominação e aculturação portuguesa. Os registros de documentos originais, fontes primárias da nossa história, como a carta de doação da Capitania a João de Barros, ajudam na contagem desse importante e tão pouco debatido capítulo.
    Enfim, a “Proto História do Rio Grande do Norte” vale a pena ser lida, oportunizando uma visão diferente e mais profunda acerca da nossa existência como parte da humanidade e, claro, como potiguares.

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Este artigo é parte de uma série de textos voltados à divulgação do acervo do IHGRN e da história do Rio Grande do Norte, veiculada aos domingos no espaço cativo do Instituto na coluna Quadrantes do jornal Tribuna do Norte.

Artigo: André Felipe Pignataro
Imagem: Maria Simões

segunda-feira, 14 de novembro de 2022

Acervo do patrimônio do Rio Grande do Norte

 
    “Acervo do patrimônio histórico e artístico do Estado do Rio Grande do Norte” foi publicado pela Fundação José Augusto, ano de 1981. Trata-se de um inventário do patrimônio do Rio Grande do Norte no que tange a arquitetura civil, militar, religiosa, sítios arqueológicos e relíquias.
    O autor, Oswaldo de Souza (1904-1995), foi também professor de piano e compositor, conta Umberto Peregrino nas orelhas da primeira edição do livro. José Bezerra Gomes ainda assinala: Souza foi fundador da revista do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o IPHAN. No currículo, ainda consta a organização do Museu do Sobradinho, hoje Museu Café Filho, na rua da Conceição, em Natal.
    Quando chegou a Natal a serviço do IPHAN, Souza assumiu por definitiva a missão de levantar os bens históricos e artísticos do Rio Grande do Norte. E trabalhou pela restauração. De Jeep e a cavalo, andou pelo Estado providenciando o reconhecimento para tombamento, pois quando chegou, em 1961, só havia aqui tombado o Forte dos Reis Magos.
    O seu trabalho foi inventariar e promover o tombamento, arrolar e construir relatórios em série para encaminhar à diretoria do IPHAN. O  livro é mais um resultado deste esforço.  
    Correr ao índice permite encontrar a divisão que o autor propôs para apresentar o acervo. A primeira parte reúne o Marco de Touros, a Fortaleza dos Reis Magos e o Fortim de São José de Genipabu. Na sequência, agrupa a arquitetura não-religiosa, casas da câmara, casarões como o Ferreira Torto e palácios como o Potengi. Acompanha registros fotográficos.
    Em patrimônio religioso, igrejas e ruínas de igrejas e uma única capela, a do Rosário em Acari, e também o Cruzeiro de São Sebastião e o frontispício do cemitério de Arêz. Depois, segue para as imagens de arte sacra e oratórios para então dedicar-se às inscrições rupestres em Jardim do Seridó, Acari, Sítio Novo e Parelhas.
    Uma segunda edição saiu em 2019 pela editora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, a Edufrn e está disponível em versão digital de forma gratuita no repositório institucional da Universidade. Nesta edição, as orelhas de Peregrino se transformaram em currículo do autor ao final do livro.

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    Este artigo é parte de uma série de textos voltados à divulgação do acervo do IHGRN e da história do Rio Grande do Norte, veiculada aos domingos no espaço cativo do Instituto na coluna Quadrantes do jornal Tribuna do Norte.

Artigo: Gustavo Sobral
Imagem: Maria Simões

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

Sertões do Seridó de Oswaldo Lamartine de Faria

 
    Rachel de Queiroz afirmou com todas as letras em um dos seus artigos: Oswaldo Lamartine de Faria é o mais competente entendedor dos assuntos do sertão. Também pudera, foi dele que se valeu em consultas para a composição do romance “Memorial de Maria Moura”.
    Oswaldo Lamartine de Faria (1919-2007) nasceu aqui na capital, Natal, Rio Grande do Norte, e estudou na Escola de Agronomia em Lavras, Minas Gerais. Mas foi quando assumiu os trabalhos na Fazenda Lagoa Nova, de seu pai, Juvenal Lamartine, final dos anos 1940, que desarnou para anotar as coisas do sertão.  Anotar, pois foi ele mesmo quem escreveu que era apenas um anotador. E tacou a cometer notas sobre as coisas do sertão: pesca, caça, construção de açude, conservação dos alimentos e algo mais.
    Parte deste enfeixe de pesquisa tinha a etnografia como caminho, consulta aos papéis velhos e as sabedorias do sertão que são os mestres que ele fez questão de nomear, referendar e agradecer: Mestre Pedro Ourives, o seleiro; mestre Zé Lourenço, o fazedor de barragens; Chico Julião, o caçador de abelhas; Bonato Liberato Dantas, pescador de açudes; Olinto Inácio, rastejador e vaqueiro maior as ribeiras do Camaragibe; Chico Lins, filho de Pedro Ourives, mestre nas artes do couro; e Ramiro, irmão de Bonato, mestre nas pescarias de açude.
    “Sertões do Seridó” é um dos exemplares deste vasto inventário de Oswaldo Lamartine sobre o sertão. Foi publicação do Senado Federal em 1980 e reúne cinco trabalhos já publicados em livro, a saber,  e os títulos já revelam os temas: “Açudes dos sertões do Seridó”; “Conservação dos alimentos nos sertões do Seridó”; “Algumas abelhas dos sertões do Seridó”; “ABC da pescaria de açudes do Seridó”; e “A caça nos sertões do Seridó”. 
    Originais e magrinhos, ligeiros e curtos, e não por isso menos importantes, os estudos de Oswaldo Lamartine de Faria incluíam além da pesquisa acurada, um texto com um estilo próprio, registrando o vocabulário do sertão, e ilustrações, fotografias, tabelas e estatísticas, que enfeixados neste título “Sertões do Seridó” reuniu os seus mais significativos trabalhos em um único volume.

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    Este artigo é parte de uma série de textos voltados à divulgação do acervo do IHGRN e da história do Rio Grande do Norte, veiculada aos domingos no espaço cativo do Instituto na coluna Quadrantes do jornal Tribuna do Norte.

Artigo: Gustavo Sobral
Foto: Candinha Bezerra
Imagem: Maria Simões

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

O Livro das Velhas Figuras

 
    O jornalismo em artigos quase crônicas, em crônicas quase perfis, foi um pouco do que o historiador Luís da Câmara Cascudo (1898-1986)  riscou nos jornais da cidade e o maior deste apanhado reuniu-se numa coluna que andou pelos jornais com o título de Actas Diurna no jornal A República em 1939, depois Diário de Natal, desaparece, volta a A República e tem fim em 1960, aponta o historiador Itamar de Souza nos fascículos “Câmara Cascudo: vida & Obra”, Diário de Natal, 1999.
    Cascudo mesmo explica numa Acta Diurna de 1939: “dei-lhe batismo latino porque a intenção cultural é honrar o passado, nas suas lutas, alegrias, tragédias e curiosidades”. E foi neste exercício de jornalismo com fundo histórico e memorialístico que Cascudo desfilou uma enfileiradas de figuras da cidade de todos os tempos, compondo pequenos retratos que revelam não só a ação dos seus perfilados, mas os pequenos detalhes que constroem a figura, jeito de ser, as maneiras.
    Daliana Cascudo, que dirige o Instituto que leva o nome do historiador, abrigado na casa em que ele morou em Natal, ali na avenida também Câmara Cascudo, subida da Ribeira para Cidade Alta, conta que ao listar tudo se deparou com uma diversidade de temas, inclusive Cascudo escrevendo sobre ecologia. 
    Parte deste material, no que se refere às figuras históricas do Rio Grande do Norte, o Instituto Histórico resolveu formar em coletâneas, as coletâneas em volumes e saiu o projeto editorial de sucesso que correu por 10 edições: “O Livro das Velhas Figuras” (1974-2008). 
    Correr ao índice é encontrar títulos que se apresentam por si só como palavras-chave, facilitando à pesquisa futura: O Senador Guerra; Dona Izabel Gondim; Doutor Barata; O Galo da Torre de Santo Antônio e o seu doador; Américo Vespúcio no Açu; A Lagoa Manoel Felipe; O Barléus do nosso Instituto.
    Outros temas históricos foram aparecendo, para além dos perfis biográfico, para satisfação dos pesquisadores e leitores e “O Livro das Velhas Figuras” se firmou nas palavras do jornalista Vicente Serejo, orelhas do volume 2, uma fusão de ritmos e construções de um Cascudo historiador das pequenas vidas e das pequenas coisas.

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Este artigo é parte de uma série de textos voltados à divulgação do acervo do IHGRN e da história do Rio Grande do Norte, veiculada aos domingos no espaço cativo do Instituto na coluna Quadrantes do jornal Tribuna do Norte.

Artigo: Gustavo Sobral
Imagem: Maria Simões

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Uma história da Fortaleza

 
    Escrever a história, ensina Helio Galvão, é mergulhar nas fontes da documentação ainda não consultada, é coordenar informações dispersas e desfazer equívocos. Galvão é tributário da tradição de que o documento é imprescindível. 
    E mais que isso, escrever a história é a consulta aos arquivos e bibliotecas, é a leitura atenta, as anotações, um ofício que pode parecer solitário, mas que não existe sem a presença dos entusiastas, as conversas sobre o tema, a ajuda de bibliotecários. 
    Nada disso passou ao largo do trabalho de Galvão, pago pelo próprio esforço, acima do desânimo, no mergulho profundo no mundo confuso dos cartórios, como observou Cascudo.
    “História da Fortaleza da Barra do Rio Grande” do insigne historiador norte-rio-grandense Hélio Galvão (1916-1981), como o nomeia outro insigne da nossa história, Olavo de Medeiros Filho, saiu em primeira edição pelo Ministério da Educação e Cultura em 1977; e em segunda edição pela Fundação Hélio Galvão e Scriptorim Candinha Bezerra, 1999.
    É a história rigorosa da Fortaleza de sua criação em contexto da época, construção, medidas, materiais, uso, serventia, ocupação, tomada, abandono, reparos. O autor ainda se importou em reunir um documentário entre cartas, relações, apontamentos, alvarás. O trabalho ainda se faz acompanhar de rica iconografia: mapas, plantas, gravuras, retratos, e um imprescindível índice onomástico e as referências pesquisadas.
    Fortaleza e não forte, explica Galvão, porque fortaleza é uma fortificação na entrada de uma praça, para protegê-la; forte é edificação menor em região isolada sem guarnição permanente. A Fortaleza, ainda explica o autor, foi erigida no processo de ocupação do território por ordem Felipe II rei de Espanha e Portugal e a construção teve início no dia dos Reis Magos, 6 de janeiro de 1598. E tudo se fez por trabalho braçal de portugueses e índios. 
    Galvão ainda apregoa o papel definitivo para Portugal na conquista e defesa da colônia e as funções que a Fortaleza desempenharia: afastamento dos invasores, abrigo para os navios, posto avançado para as jornadas do norte e proteção da barra do Rio Grande. Perfeita e poética é a reconstituição do cenário da cidade naquele tempo, um dos mais belos registros da paisagem natalense.

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Artigo: Gustavo Sobral
Imagem: Maria Simões

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Breviário Cívico sobre Ceará-Mirim

 
    Há quarenta e oito anos existem nas estantes de algumas bibliotecas os exemplares da obra “Ceará-Mirim: exemplo nacional (1938 - 1972)”, em dois volumes, da autoria de Júlio Gomes de Senna, natural daquela cidade.
    Não é romance, nem é poesia, é uma obra densa e indispensável a todos aqueles que desejam conhecer parte da geografia e sociologia de Ceará-Mirim. Obra póstuma, lançada pela viúva e filhos, posto que o autor veio a falecer em 10 de junho de 1972.
    O prefaciador da obra foi Edgar Barbosa, também natural daquele vale, que tão bem falou sobre o trabalho didático deixado por Júlio Gomes de Senna. Quem se debruça sobre “Ceará-Mirim: exemplo nacional”, perceberá que o autor conduz de forma sistemática, o ledor pelos campos da geografia, geologia, meteorologia, economia, botânica etc. As páginas escritas por Júlio Senna formam um documento literário, que bem definiu o prefaciador, quando asseverou: “o livro é um breviário cívico”.
    Fruto de uma longa pesquisa que teve seu início em 1938, e se estendeu até 1972, Júlio Gomes de Senna escreveu com propriedade. Era engenheiro-agrônomo, turma de 1935, da Escola Agrícola da Bahia.
    Ler “Ceará-Mirim: exemplo nacional” é, sem sombra de dúvida, correr os olhos sobre uma obra que é, ainda hoje, a melhor que existe sobre o tema proposto. Fico, às vezes, indagando o quanto Júlio Gomes de Senna suou para realizar a pesquisa.
    Não exagerou Edgar Barbosa quando escreveu: “Guardadas as proporções com o espírito e a cultura vigentes na época, “Ceará-Mirim: exemplo nacional”, se aproxima do livro com o qual, em 1902, Euclides da Cunha atraiu a inteligência brasileira para a compreensão do meio físico e o estudo das profundezas da nossa índole”.
    Tudo que pensarmos sobre Ceará-Mirim, no espaço do tempo entre 1938 a 1972, iremos encontrar nessa obra. Se fôssemos um país sério, dado à leitura, há muito essa obra estaria sendo adaptada para um público infanto-juvenil e sendo instrumento de formação nas escolas de Ceará-Mirim.
    Nada devo mais escrever, exceto convidar o leitor a também conhecer a obra fruto dessa resenha.

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Este artigo é parte de uma série de textos voltados à divulgação do acervo do IHGRN e da história do Rio Grande do Norte, veiculada aos domingos no espaço cativo do Instituto na coluna Quadrantes do jornal Tribuna do Norte.

Artigo: Francisco Martins
Imagem: Maria Simões

segunda-feira, 10 de outubro de 2022

Todo menino nasce com asas

 
    Pouco se comenta, mas o livro “Menino de Asas” foi uma das obras mais lida pela juventude, tendo seu apogeu entre 1977 e 1997, muito bem aproveitado pela editora Ática, dentro da coleção Vaga-Lume. Muito bem escrito por Homero Homem, a narrativa tem um pouco de romance, ação e aventura, um texto completo, que ganhou o Prêmio Nacional de Literatura do MEC-INL, em 1975, mas que já havia sido publicado originalmente em 1971. 
     O livro trata de uma extraordinária história de um garoto, filho de agricultores, nascido com asas. Indo estudar, o garoto causa grande desconforto às famílias que não o querem frequentando a escola daquela pequena cidade por vê-lo como uma grande aberração. Constrangido com a situação, o professor negocia com a família para que o garoto não volte à escola, mas se compromete em dar-lhe aulas particulares, em casa. 
     Indo morar na cidade grande, buscando por trabalho, acaba encontrando o mesmo preconceito de sempre. Para uns era um anjo, para outros era um monstro alado. Escondendo as asas sem sucesso, vai encontrar amizade sincera apenas com os meninos de rua, os únicos que estendem a mão para ampará-lo em seu pior momento.
    No meio das desilusões da vida, encontra sua paixão verdadeira, Ruth, a filha do cirurgião que estudava sua anatomia e iria amputar as asas para que pudesse ter uma vida normal. Assim ele poderia ser igual aos outros garotos de sua idade, sem ser visto como uma aberração. 
    “Menino de Asas” é um livro “multitemático” que, muito embora trate visivelmente do preconceito ao diferente, à deficiência e à aceitação si próprio, subliminarmente é uma narrativa sobre os dilemas e paradoxos da sociedade. Durante toda a história, o menino não tem nome e isso não incomoda. O incômodo era que ela sabia e podia voar, como se isso fosse um sinal de liberdade dentro da vida limitada de quem os cercava.
    Se ele tivesse nascido apenas sem braços seria acolhido pela piedade alheia, teria sido levado à escola e ajudado por todos, seria inofensivo dentro do seu círculo social. Mas suas asas mostravam uma qualidade superior que incomodava à mentalidade mediana, pois a maior dificuldade humana é aceitar o sucesso alheio. Nos apiedamos do sofrimento, nunca do êxito e das vitórias dos outros.
Por último, o “Menino de Asas” foi o próprio autor. Homero Homem foi esse garoto que sabia voar, que via o mundo com outros olhos e foi capaz de escrever tão bela história, pois não se poupava em voar alto enquanto a sociedade queria lhe segurar ao chão e limitar seus horizontes.
    Quantos meninos são amputados pelas escolas, pelos professores, pela família, pela sociedade, pela religião (não pela fé), crescem presos ao chão sem nunca experimentarem o sabor da imensidão que um olhar pode oferecer e nunca ousam nem levantam um olhar ao céu. Meninos que esqueceram seus sonhos na mais rasa e provinciana mentalidade.
    Salve Homero Homem que alçou seus voos na literatura ousando “usar a imaginação para escrever”. Se entregando à profissão descriminalizada e sem méritos. Faço votos para que deixemos as asas dos meninos brotarem naturalmente, sem medo, e sejam exibidas para os outros para que voem na utopia de uma sociedade melhor, mais justa, sem preconceitos.

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    Este artigo é parte de uma série de textos voltados à divulgação do acervo do IHGRN e da história do Rio Grande do Norte, veiculada aos domingos no espaço cativo do Instituto na coluna Quadrantes do jornal Tribuna do Norte.

Artigo: Francisco Galvão
Imagem: Maria Simões

terça-feira, 4 de outubro de 2022

Nomes da terra

 
    “Nomes da Terra” é mais um título de Câmara Cascudo voltado para a cultura local. A primeira edição foi lançada em 1968, pela Fundação José Augusto, e uma segunda edição foi publicada pela editora Sebo Vermelho, de Natal, em 2002.
    Cascudo fala, na página 60, que este livro começou a ser escrito em junho de 1929 e foi finalizado em setembro de 1952. Ainda na mesma página, escreve “O ensaio chamar-se-ia TOPONIMIA NORTE-RIO-GRANDENSE, e assim foi divulgado. Ficou, entretanto, esquecido numa gaveta durante quatorze anos, Em 1966, reencontrei-o voltando o namôro, expresso na tarefa renovadora, multiplicando os verbetes, retificando as versões apressadas, flôres do prematuro entusiasmo de amador.”.
    Seu título, Nomes da Terra, se deve a etimologia da palavra "toponímia'', que vem do grego e significa “nome de lugar”. 
    Seu autor, Luís da Câmara Cascudo, nasceu em Natal em 1898, exerceu diversas profissões, tendo apreciado o tempo como jornalista e, posteriormente, como pesquisador e escritor. “Encantou-se” em 1986, após anos escrevendo os frutos de suas pesquisas para jornais, revistas e livros. Até hoje é um dos maiores pesquisadores de etnografia e folclore, tendo escrito diversos livros que são referências nas mais diversas áreas. 
    O foco do livro é a toponímia dos municípios do Rio Grande do Norte, porém o autor sempre a relaciona com a história e geografia, dando à obra um valor igual ou maior do que uma enciclopédia. Acerca da história envolvida, ele relata fatos dos tempos de ocupação da província, no século XVII, até dados relacionados aos municípios que ocorreram no século XX. 
    A apresentação é feita pela filha do autor, Anna Maria Cascudo Barreto; posteriormente há uma carta de Theodoro Sampaio em resposta a uma correspondência de Cascudo ao qual ele pergunta sobre a origem de determinados nomes de municípios potiguares; por fim, há um magnífico prefácio feito por Manoel Rodrigues de Melo, deliciando o leitor antes mesmo de se deparar com os escritos do autor. 
    Este é um dos livros de cabeceira que os potiguares deveriam ter!

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    Este artigo é parte de uma série de textos voltados à divulgação do acervo do IHGRN e da história do Rio Grande do Norte, veiculada aos domingos no espaço cativo do Instituto na coluna Quadrantes do jornal Tribuna do Norte.

Artigo: Pedro Simões
Imagem: Maria Simões

segunda-feira, 26 de setembro de 2022

Raimundo Nonato da Silva

 
Raimundo Nonato da Silva

    Pensei que descobrira algo diferente, até mesmo estranho, acerca de Raimundo Nonato da Silva. Dizia respeito a sua ubiquidade. Ou predestinação. Deveria ter me precavido contra esse ataque de arrogância pueril e consultado meu Cascudo. Não o fiz, e tropecei logo nos primeiros passos. Ali estava, em uma Acta Diurna, no livro cujo título é Raimundo Nonato, o Homem e o Memorialista, organizado por José Augusto Rodrigues e publicado em 1987, pela Coleção Mossoroense, para o qual contribuiu a fina flor dos escritores norte-rio-grandenses em homenagem aos 80 anos do grande escritor Martinense: 
    “Vida movimentada e curiosa. Está em São Miguel de Pau dos Ferros, 1927/28. (...) 1929/30 está em Serra Negra, até a Revolução de outubro, com a invasão dos bandos que exigem comida, bravateando. (...) Finalmente transferem-no para Mossoró, em 1931. Apodi, um ano depois.” 
    Eis a ubiquidade de Raimundo Nonato, flagrada e descrita por Câmara Cascudo: Raimundo em São Miguel, e logo depois escreveu Os Revoltosos em São Miguel 1926; Raimundo em Serra Negra do Norte, e logo depois escreveu A Revolução de 30 em Serra Negra; Raimundo em Mossoró e, logo a seguir, veio Lampião em Mossoró, o primeiro livro escrito por um potiguar acerca do Cangaço. 
    Raimundo Nonato é um portento, eis o que se extrai do que se lê nos textos dos que lhe homenagearam. Memorialista, romancista, poeta, historiador, cronista, biógrafo, etnógrafo, jornalista... Em sua lendária produção literária, contam-se mais de oitenta livros, mas esse é um número duvidoso: somente pela Coleção Mossoroense, foram mais de 30, prego batido, ponta virada. 
    Estava em todos os cantos, no momento certo, e escreveu acerca de muitos temas, como se percebe em Histórias de Lobisomem (folclore); O Pilão (etnografia); Bacharéis de Olinda e Recife (história); Quarteirão da Fome (romance); Memórias de um Retirante (memórias); Província Literária (crônicas); Jornalista Martins de Vasconcelos (biografia); Lampião em Mossoró (cangaçologia); Jesuíno Brilhante, O Cangaceiro Romântico, este um livro canônico, referencial, e por aí vai, sem levar em conta os artigos, perfis, discursos, conferências e outros textos publicados em livros e revistas, enquanto participação, bem como jornais do Brasil adentro e afora.
    Repita-se, e acrescente-se, para que não reste dúvida: Raimundo Nonato foi o primeiro escritor, salvo algum equívoco, norte-rio-grandense a escrever livros acerca do Cangaço (Lampião em Mossoró), Coluna Prestes no Rio Grande do Norte, Revolução de 30 no Estado, e o primeiro escritor a lançar uma biografia, por instigação de Cascudo, de Jesuíno Brilhante, o primeiro dos grandes cangaceiros.
    Ubíquo, prolífico, atento, presença certa durante um longo tempo no meio intelectual potiguar, até mesmo brasileiro, integrante de tantas quantas instituições culturais houve, e fundador de tantas e quantas outras, Raimundo Nonato da Silva, apesar de tudo isso, marcha lentamente para aquele limbo terrível onde habitam os escritores que o tempo encaminha para a penumbra.
    Sobrevive, ainda, graças a leitores contumazes, pesquisadores renitentes que às vezes, por dever de ofício, outras vezes por curiosidade malsã, percorrem sebos em busca de um ou outro título citado em nota de rodapé.
    A obra de Raimundo Nonato da Silva, o menino pobre nascido na Serra da Conceição, sobrevivente a duros custos, amante dos livros, alguém que mais do que qualquer outro, excetuando Cascudo, foi uma testemunha do seu tempo, não merecia isso. 

Artigo: Honório de Medeiros
Imagem: Maria Simões

segunda-feira, 19 de setembro de 2022

O missivista do mar

 

    Até concluir minha segunda graduação, só conhecia Hélio Galvão de ouvir falar. Nascido em 1916, Hélio Mamede de Freitas Galvão foi um brilhante jurista, tabelião, historiador, antropólogo, sociólogo, jornalista, cronista, professor e católico exemplar; coisas que só fiquei sabendo depois de me apaixonar por seus escritos. Foi sentado na calçada e lendo coisas para meu pai que me deparei com suas crônicas magníficas que falava sobre as coisas vividas pelo povo simples da beira da praia. 
    Papai, que foi acometido pelo glaucoma, continuava sedento por saber e exigia de mim novas leituras. Já havia lido Oswaldo Lamartine para ele, com suas elucubrações sobre os sertões, e foram as “Cartas da Paria” nos deram horizontes para novas conversas. Meu pai confirmava aqueles velhos hábitos do povo da região e íamos aprofundando conhecimentos na etnografia do Litoral Sul Potiguar.
    Quando falo das “Cartas da Praia”, também me refiro às “Novas Cartas da Praia” e às “Derradeiras Cartas da Praia”, crônicas essas publicadas originalmente no jornal Tribuna do Norte, do seu grande amigo Aluízio Alves, e tornadas livro posteriormente, se transformando em uma obra icônica para quem quer entender o litoral.
    Hélio, em suas “Cartas”, nos apresenta o mar, as grandes lagoas, o pescador, o peixe, a vara e a rede de pescar, a mata atlântica, o tabuleiro e o manguezal. Não é possível uma compreensão completa do litoral sem ler as “Cartas da Praia”. Das lendas da “Comadre Fulozinha” até o “Haja Pau”, passando pelo pavoroso “Bicho Berrador”, o missivista contava as histórias que o povo sabia.
    Sobre a alimentação explicou os modos de comer e fazer comidas no litoral.  Comentando as frutas da região, dissertou sobre o caju, a mangaba e o coco, fez também citações sobre os frutos selvagens como o araçá, a batinga, o camboim, a Guabiraba, a maçaranduba e a ubaia. Suas epístolas trataram dos peixes e das técnicas de pescar. Nomeou a cioba, o anequim, a albacora, o boto, o cação, a cavala, o avoador, entre outros. Falando sobre o homem do litoral citou nomes e utensílios comuns como o covo, o remo, o torrador de café, os bilros, o fuso, o machado, explicações sobre a vela, os barbos, canoas e jangadas. 
    Nas “Cartas da Praia” estão reminiscências do povo que ia até sua residência, em Tibau do Sul, para puxar conversas. Por isso foi capaz de descrever tanta coisa sobre o lugar. Percebe-se em suas palavras que são assuntos retirados dos livros, mas conhecimentos ainda envoltos nas cascas da matéria-prima. Essas missivas salgadas revelaram ainda personagens emblemáticos das beiradas do Atlântico, pessoas simples e seus hábitos cotidianos, com seus codinomes e genealogias, fazendo uma antropologia física dos habitantes. Também trata do folclore e das devoções populares.
    Da geografia, Hélio relata a linda e suave paisagem do seu lugar amado, com seus morros, barreiras, dunas, falésias, rios, barras, canais e lagoas. Entrando na toponímia, esclarece mistérios da língua que expressam os lugares que “até os nomes fazem sonhar”. Está tudo lá, de forma límpida e clara, fazendo qualquer um entender: o cotidiano de quem vive à beira-mar. Deixou-nos, é verdade, como disse sua biógrafa, “o saber como herança”. Mas não foi só isso. Deixou-nos, também, um exemplo de homem de bem a ser seguido.

Artigo: Francisco Galvão
Imagem: Maria Simões

segunda-feira, 12 de setembro de 2022

Velhos costumes do meu sertão

 
    O moleque fazia uma força danada para tocar o búzio, mas seus pulmões careciam de amadurecimento. Larga disso moleque, deixe eu chamar quem não está à distância do grito…
    – Ô de casa!
    – Ô de fora!
    – É de paz…
    Pela fresta da porta, viu alguém se aproximando...
    Assentada no alto, a casa grande está de janelas e portas abertas para o arejo, menos o quarto das moças, tapado de janelas para fora. Os homens confabulam no copiar e as mulheres se ocupam na sala de trabalhos domésticos. A mesa está posta e pronta à partilha dos que chegarem; amanhã tem casamento na fazenda.
    – É casamento arranjado ou de moça fugida?
    – Olhe o cabimento, seu moleque atrevido! Você vai já para escola, está precisando desasnar com uma boa palmatória.
    Os diálogos acima são inspirados no livro “Velhos costumes do meu sertão”, de Juvenal Lamartine de Faria, que justifica a sua obra na urgência em fixar “com fidelidade, de como viviam nossos antepassados, a fim de que as gerações futuras possam conhecê-los e compreenderem melhor a sua evolução”.
    O livro reúne os artigos publicados na Tribuna do Norte, no último trimestre de 1954, que descrevem com exatidão a região da caatinga, povoada no rastro do gado. A apresentação é de seu filho, o sertanista e imortal Oswaldo Lamartine de Faria.
    Dr. Juvenal descreve os currais, a casa grande, a indumentária, a alimentação, a escola, os instrumentos de trabalho, as relações de parentesco, a hospitalidade desse povo, as festas, as crendices e superstições, os vaqueiros e vaquejadas, os cangaceiros, os matadores de onça, a morte e o sepultamento, no universo do sertão de antigamente.
    A obra literária traz à tona a lembrança dos fatos narrados de boca em boca nas conversas do copiar ou na pausa do balanço das redes no alpendre; imperdíveis para que ama o sertão de nunca mais.
    Como adendo à resenha, é sempre bom não esquecer que, graças ao então Senador Juvenal Lamartine de Faria, sob influência da cientista Bertha Lutz, as mulheres saíram da sala de trabalhos domésticos e passaram a participar das conversas do copiar (exclusivas do universo masculino). 
    Por sua iniciativa, o voto feminino foi instituído no Estado do Rio Grande do Norte, de forma pioneira no Brasil e na América do Sul. A Lei Eleitoral Estadual nº 660, de 25 de outubro de 1927, sancionada pelo Governador José Augusto Bezerra de Medeiros, permitiu a todos os cidadãos, sem distinção de sexo, a possibilidade de votar e ser votado.
    Ainda em 1927, a professora Celina Guimarães Viana, aos 29 anos de idade, foi incluída no rol de eleitores da cidade de Mossoró; e, em 1929, também no Rio Grande do Norte, Alzira Soriano tomou posse como Prefeita eleita da cidade de Lajes. O pioneirismo potiguar não parou por aí. Em 1934, Maria do Céu Fernandes, nascida em Currais Novos, tornou-se a primeira mulher brasileira a ocupar o cargo de Deputada Estadual.

Artigo: Elza Bezerra Cirne
Imagem: Maria Simões

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

Revista da ANRL, 70 anos, 70 edições

 
    A Revista da Academia Norte-rio-grandense de Letras chegou a sua septuagésima edição, referente ao primeiro trimestre de 2022, fato inédito em se tratando de um periódico literário-cultural no Estado. Distribuída para toda a comunidade, de forma gratuita, num momento muito oportuno, a publicação comemorou, em agosto do ano passado 70 anos de história, dentro dos 85 anos da Instituição, fundada por Câmara Cascudo e um grupo de intelectuais em 14 de novembro de 1936.
    Junte-se a esse fato que merece registro, outro dado importante, o periódico está numa fase de nove anos de atividades ininterruptas, inclusive enfrentando esses anos de pandemia (Covid-19), sem parar.
    Vale salientar que essa nova fase começou em julho de 2013, quando a convite do Presidente da ANRL, Diógenes da Cunha Lima e do Diretor da Revista, Manoel Onofre Junior, viemos colaborar como editor, dando início à publicação trimestral do periódico, que passou a circular regularmente de janeiro de 2014 até os dias atuais.
    A primeira edição da Revista da ANRL foi publicada em agosto de 1951, e teve como primeiro diretor o escritor Nestor Lima. Com o passar dos anos outros diretores foram assumindo - Luís da Câmara Cascudo, Aderbal de França, João Wilson Mendes Melo - todavia o periódico sempre com tiragens irregulares, devido às dificuldades que todos nós conhecemos em publicar na província. Às vezes, passavam-se anos sem sair uma edição sequer, e como bem falamos, a partir da edição janeiro/março de 2014, a revista renasceu, inclusive do ponto de vista estético, com tiragens regulares, trimestralmente, superando qualquer outro periódico cultural do Estado ao longo dos anos. Note-se que, no momento, não existem, pelo menos de forma oficial, outros periódicos culturais em circulação no Rio Grande do Norte; isso só reforça a importância da Revista da ANRL para a nossa cultura literária, sobretudo numa época muito fértil das nossas letras, com vários escritores publicando nos quatro cantos do Estado, com o surgimento de vários polos culturais, além de haver um forte crescimento na área de estudos e pesquisas sobre a literatura potiguar no âmbito das universidades, vide a quantidade de dissertações e teses sobres autores norte-rio-grandenses surgidas nos últimos anos na UFRN e na UERN.
    Comemorando sua fase mais prolífica e regular, a revista, em atenção a uma ideia surgida através de conversas com o jornalista e escritor Edson Soares, resolveu publicar em suas capas, quadros dos principais artistas plásticos do Estado. A estreia se deu com a edição de número 55, abril/junho, de 2018, com uma tela de Dorian Gray Caldas.
    Outro dado importante, uma das principais características da nova etapa, a abertura para a comunidade literária, abrindo e ao mesmo tempo unindo a Academia com a intelectualidade potiguar, abertura esta praticamente inédita, e também cedendo espaços para publicação de trabalhos de pesquisadores, estudantes e professores, da UFRN, UERN, IFRN, UNP, fazendo inclusive com que a revista conseguisse obter o seu primeiro Qualis (sistema brasileiro de avaliação de periódicos),o primeiro do estado para um periódico desse segmento.
    Vale ressaltar que, com a chegada da pandemia de Covid-19 no início de 2020, a revista não parou em nenhum momento, continuou firme em sua jornada, com a missão de levar um conteúdo diversificado aos seus leitores e também com a preocupação de montar uma espécie de painel cultural, inclusive mostrando os novos valores que têm surgido nestes últimos tempos em nossa literatura.

Artigo: Thiago Gonzaga
Imagem: Maria Simões

terça-feira, 30 de agosto de 2022

História da cidade do Natal


    Dois homens, apaixonados por sua terra comum, sonharam a realização da obra “História da cidade do Natal”: Sylvio Piza Pedroza e Luís da Câmara Cascudo. 
    Sylvio, então Prefeito de Natal, trabalhava em prol da modernização da cidade, já Cascudo, tinha a atenção voltada à preservação de uma memória coletiva. Surgida a partir de uma encomenda do então prefeito, a obra já vinha sendo lentamente construída através de inúmeros artigos que Cascudo publicava, desde 1918, nos jornais A Imprensa e, posteriormente, A República. 
    Neles, o seu olhar de repórter se lançava sobre a cidade e múltiplos temas lhe despertavam o interesse: o novo plano da cidade (o “Máster Plan”), a arborização, os literatos nascentes, os problemas sociais e estruturais, o papel das instituições culturais, a organização política, e, principalmente, o povo e seus costumes. Através destes artigos, o autor traçava, com precisão, o retrato de sua cidade, e o registro da sua história começava a ser esboçado. 
    Nesta escrita, o autor adota uma postura de “historiador do cotidiano”, com ênfase não somente nos fatos históricos oficiais, que são considerados dignos de nota, mas no dia a dia do povo, nos personagens anônimos e nos pequenos acontecimentos fortuitos da cidade, que, de outra forma, seriam esquecidos no Tempo. 
    Para Cascudo, “uma História da Cidade do Natal registrará o essencial, o característico e a constante sociológica teimosamente sobrevivente”. Ele assume, intencionalmente, um papel similar ao “Alvissareiro da Torre da Matriz”, referência a João Irineu de Vasconcelos, que, a partir de 1862, construída a torre da Igreja Matriz na Praça André de Albuquerque, e chantado um mastro no topo, olhava a cidade, morros, praias, rio e mar, erguendo bandeiras sempre que avistava navios e espalhando as notícias, alegres ou tristes.  
    A obra, publicada originalmente em 1947, segue uma cronologia histórica, iniciando com a colonização, a fundação e os nomes da cidade, sem esquecer a invasão holandesa, a guerra dos cariris, as revoluções, a abolição e a república, bem como o desenvolvimento e a evolução da cidade, com a criação de novos bairros e a chegada do “progresso”, trazendo benefícios e prejuízos inevitáveis. 
    Entretanto, sua visão de historiador do cotidiano, o conduz a análises sociológicas, antropológicas, etnográficas, políticas e culturais que aparecem nitidamente nos capítulos “A sociedade e os costumes”, “Terra e gente”, “Festas populares”, “Teatro”, “Divertimentos”, “Imprensa política”, “Musa, canta os poetas e escritores...”, entre outros. 
    Nenhum aspecto é esquecido, nem considerado irrelevante pelo autor, cuja análise acurada estende-se a temas múltiplos. Por toda a extensão da obra, é impossível não constatar o profundo amor que o autor devota à sua terra natal e a identificação íntima que mantém com ela. Para Cascudo, “o homem é a cidade em que nasce”. 
    Para, de certa forma sacramentar esta relação tão estreita, no dia 25 de dezembro de 1948, data do 349º. aniversário da cidade, Cascudo recebeu, das mãos do Prefeito Sylvio Pedroza o título de “Historiador da Cidade do Natal”, impresso em pergaminho e acompanhado de uma miniatura da chave da cidade, em ouro. Simbolismo amoroso e motivo de orgulho maior para aquele “provinciano incurável” que afirmava, com convicção, “nunca pensei em deixar minha terra”. 

Artigo: Daliana Cascudo
Imagem: Maria Simões

segunda-feira, 22 de agosto de 2022

Angicos, o primeiro título de Aluízio Alves

 
    Nascido em Angicos, município situado na região central do Rio Grande do Norte e que tem o seu nome originado do angico vermelho, árvore de médio a grande porte (mede cerca de 12m de altura, mas pode chegar a 20m), Aluízio Alves foi um vencedor e homem de muitos títulos, como jornalista, como escritor, como empresário e como político.
    Angicos legou ao Estado uma outra liderança de estatura, o capitão José da Penha Alves, homem que lutou, em meados da segunda década do século passado, contra a oligarquia Albuquerque Maranhão. Aluízio, por sinal, escreveu um belo trabalho sobre José da Penha. E um outro, o seu primeiro, sobre a terra na qual nasceu, que ganhou título seco e direto – “Angicos”, com primeira edição dos “Irmãos Pongetti Editores” e dedicado aos pais, irmãos e aos seus mestres e amigos Câmara Cascudo, José Augusto e Eloy de Souza, responsável, por meio de carta, pela apresentação da obra.
    Escrito por um jovem recém-saído da adolescência, que desprezava a programação de sua geração (bailes, festas e boemia) para se enfurnar nos arquivos da prefeitura, da igreja e do cartório, “Angicos”, com mais de 350 páginas, nasceu como um importante trabalho.
    Escrito entre os anos de 1938 e 1939, quando Aluízio tinha 17-18 anos, e publicado em 1940, “Angicos” fez parte da “Biblioteca de História Norte-Riograndense”, projeto do ex-governador José Augusto e do jovem angicano – e ao qual também estiveram associados Antônio Soares Filho e Vingt-un Rosado –, para publicar livros sobre os municípios do estado, biografias e memórias de lideranças políticas importantes e livros de poesias, inéditos ou esgotados, entre outros.
    Com vinte e três capítulos distribuídos em quatro seções 1 – História (na qual discorre sobre o processo de povoamento do Grande do Norte e mais detidamente da região central, onde está Angicos), 2 – Formação Política (criação da vila, a rivalidade com Santana do Matos, as diversas administrações, os movimentos abolicionista e republicano, a revolução de 1930, a intentona comunista), 3 – Divisão Administrativa (apresenta os distritos que compunham o município) e 4 – Formação Literária (descreve a educação, imprensa e vultos literários), o livro foi rapidamente esgotado, só sendo reeditado mais de meio século depois pela “Fundação José Augusto”, em 1997, como segundo volume da coleção “Biblioteca Potiguar”.

Artigo: Sérgio Trindade
Imagem: Maria Simões